Jejum no Ayurveda: quando ele ajuda a digestão e o Vata, quando tira vitalidade, o que evitar pela manhã e como sair de um jejum longo.
O jejum no Ayurveda faz bem quando protege e acende o fogo digestivo (Agni, a força que digere tudo o que comemos), e faz mal quando vira muito jejum somado a uma alimentação só de saladas, frutas e coisas leves. Ele tem usos claros, como o jejum de um dia e meio para desparasitar e o jejum de elixir para acalmar o Vata. Já começar o dia em jejum com café, ou viver de jejum, saladas e frutas, enfraquece a digestão e tira vitalidade.
Tudo no Ayurveda parte da digestão. Quando o fogo digestivo funciona bem, os tecidos também funcionam bem. Quando ele falha, surgem os gases do Vata, a acidez do Pitta e o muco do Kapha, e tudo isso começou porque a pessoa não conseguiu digerir.
Por isso, a primeira coisa que entra no corpo pela manhã, ainda em jejum, precisa estimular esse fogo. Antes de pensar em ficar sem comer, vale olhar para si: você digere bem? Seu corpo transforma o que passa por ele?
No Ayurveda, o caminho para desparasitar é manter o fogo digestivo alto, e não tomar laxante. Os sinais que pedem atenção são:
Se a resposta for sim para pelo menos três deles, dá para pensar em desparasitação. Barriga inchada também é um sinal. O primeiro passo é deixar os parasitas com fome: um jejum de um dia e meio, cerca de trinta a trinta e seis horas, tomando apenas água do filtro de barro, e em pouca quantidade.
O jejum é quebrado com um leite de hortelã e erva de Santa Maria (uma ervinha purgativa, com sementinhas, que age contra vermes e parasitas). O leite é batido no liquidificador com as ervas, recebe um pouquinho de açúcar mascavo, ferve até reduzir e é coado num pano, ficando cremoso. Esse leite doce atrai os vermes, que se alimentam dele enquanto as ervas agem. Cada caso pede um cuidado individual, porque a maioria das pessoas vive com algum dosha agravado.
O jejum de elixir é feito com a panaceia (gengibre, limão, açúcar mascavo e sal do Himalaia) junto com Ghee, tâmara e fruta. Tudo é batido e fica com aparência leitosa, mas o elixir é picante e quente, com o gengibre no meio. Ele pode ser usado até três vezes ao dia, principalmente no dia de jejum, e rende melhor pela manhã, embora sirva em qualquer horário.
Junto com ele entram as tâmaras hidratadas, até três por dia, de preferência antes das refeições. Para quem tem o Vata agravado e quer aumentar os movimentos do intestino, entram uma prática de yoga com bastante abertura de pernas, a panaceia em jejum e, depois, uma caminhada. Após a caminhada, uma boa sessão de yoga é ideal.
Muita gente acredita que equilíbrio é meditar o tempo todo, fazer jejum, praticar yoga, comer só saladas e frutas e viver de luz. O Ayurveda enxerga isso de outro jeito. Comer muitas coisas leves não coloca fogo nem lenha suficientes no corpo. Quem vive assim pode perder vitalidade, vigor e até libido, porque enfraquece o Ojas (a reserva de vitalidade que faz a pessoa adoecer menos e viver mais).
A vida é feita de ciclos: momentos de movimento, de diversão, de descanso e de contemplação. O que não muda, adoece. O jejum entra como um desses momentos, e não como estado permanente. A estação também conta: assim como a planta não precisa ser aguada no verão, mas pede água no inverno porque está ressecada, o corpo no período frio e seco pede restauração, e não mais leveza.
Se for quebrar o jejum com café mesmo assim, acrescente algo que traga aterramento, como tâmara, ou adoce com açúcar mascavo. No café com gordura, deixe o óleo de coco de lado e use só Ghee e tâmara. E o suco matinal deve ser coado: assim ele se distribui melhor pelo corpo, sem o fitato e o excesso de fibras que atrapalham a digestão.
Quem sai de um jejum longo e tem diarreia geralmente está com pouca aderência na alimentação. A digestão fica como uma corda de cabo de guerra tão seca que, ao ser puxada, estala e solta poeira. Forçar com alimentos secos demais dá nisso.
Para voltar bem:
A chave é sempre voltar com algo que traga umidade e suavidade para a digestão.
Nem tudo é bom para todo mundo o tempo todo. O jejum de um dia e meio serve para desparasitar, o jejum de elixir ajuda a equilibrar o Vata, e viver de jejum tira vitalidade. A constância é o que comanda: cuide primeiro da digestão, use o jejum como ferramenta e volte dele com comida úmida e doce.