A maioria das pessoas usa ervas da forma errada. O Ayurveda explica por que todo chá é leve — e por que isso é um problema para Vata e Pitta. O veículo da erva muda tudo.
Você acorda, coloca a chaleira pra esquentar, prepara seu chazinho e sente que está fazendo algo bom pro corpo. Pode ser que esteja. Mas pode ser que não.
O Ayurveda tem uma visão sobre ervas que vai na contramão do senso comum, e entender isso pode mudar bastante a forma como você usa plantas medicinais.
Na ciência Ayurvédica, cada alimento e preparação tem qualidades (gunas). O chá — qualquer chá — tem uma qualidade predominante: é leve (laghu). A água extrai os compostos ativos da erva, mas dilui e não carrega nutrição densa.
Agora pensa: Vata é leve, frio e seco. Pitta é leve e quente. Se você é Vata ou Pitta — e a maioria dos brasileiros é — adicionar mais leveza ao seu sistema não é equilíbrio. É agravamento.
Para Kapha. O indivíduo Kapha é pesado, úmido, lento. Dar algo leve para ele é um benefício real — estimula, seca um pouco, move o que está parado. Faz sentido.
Agora imagina o contrário: alguém leve, ágil, ansioso, com digestão irregular, intestino instável. Essa é a fisiologia Vata. Dar chá para esse indivíduo é como jogar vento em quem já está voando.
Gengibre é uma das plantas mais recomendadas do mundo. E é excelente — mas com critério. Ele é quente, penetrante, termogênico. Para quem tem digestão lenta, é um grande aliado.
Detalhe importante: gengibre seco tem 20 vezes a potência do gengibre fresco. Se você não reage bem ao gengibre, talvez o problema seja a forma, não a planta. Uma colher de gengibre fresco num prato cozido é muito diferente de meia colher de chá de gengibre em pó.
A centelha asiática é incrível para a mente, memória e hiperatividade. Funciona? Funciona. Mas não como chá para quem é Pitta ou Vata.
O veículo certo para a centelha é o leite cozido com especiarias. A gordura do leite carrega a erva até o tecido nervoso — que é o sexto de sete tecidos, gordo e profundo. O chá não chega lá. Fica na superfície.
Não é a erva certa ou errada. É a erva certa, no veículo certo, para a pessoa certa.
Alecrim, angélica, manjericão — ervas penetrantes têm a qualidade do Pitta. São estimulantes, quentes, ativas. Para alguém com Pitta dominante, usá-las em excesso é como colocar mais lenha num fogo que já está alto.
Ervas resfriantes como coentro, salsinha e camomila são melhores para o Pitta — mas mesmo essas, o ideal é usar em leite ou óleo, não em chá.
Sálvia com cúrcuma fresca é um preparo que recomendo há anos para mulheres com TPM, menstruação irregular e pele inflamada. A sálvia mobiliza o sangue estagnado e a cúrcuma purifica. Como chá, funciona aqui porque o objetivo é justamente ser leve e limpar.
Antes de preparar seu próximo chá, pense: qual é o meu dosha predominante agora? Essa erva é quente ou fria, leve ou pesada? Qual é o veículo ideal para ela chegar onde eu quero?
Se você é Vata ou Pitta e sente que os chás não estão te fazendo bem, provavelmente não é desconfiança infundada. A erva certa com o veículo errado é desperdício. Às vezes, é agravamento.